Espicaçando o Marketing

Em tempos bicudos, de transformações e mudanças, há que espicaçar. Quem pode espicaçar? Todos e cada um que tem um mínimo de discernimento do presente e sabem que à semelhança do que aconteceu com o Titanic, não tem sentido continuar tocando na orquestra.

quinta-feira, junho 08, 2006

Capital Social


Acredito no Capital Social. Mas antes temos que extirpar do nosso meio o cinismo. E conscientizar a todos nós que fazemos parte da tal da elite - pois no fundo sustentamos esse cinismo tão nocivo.

Em entrevista com Miriam Leitão ontem no Globo News, Eduardo Giannetti da Fonseca focou na ferida brasileira e mandou ver. Nosso problema é que não valorizamos o Capital Social.

Eu assim resumo: geramos uma grande massa de gente que não termina a escolaridade básica, não consegue um trabalho decente, é jogada na informalidade, não realiza poupança nem cuida da sua previdência pessoal. E sem uma formação mínima para a vida, fica mais vulnerável a agir sem ética e ser manipulado ou mesmo enganado por líderes e políticos safados.

Giannetti exemplifica: temos mais proprietários de veículos na cidade de São Paulo do que empregados com carteira assinada. Hoje seria mais importante uma equipe capacitada do que um galpão novo. Mas os balanços não conferem isso com o valor devido. Os bancos não avaliam esse tipo de ‘capital’! Pelo menos por enquanto.

O patrimônio americano foi recentemente avaliado por dois economistas-prêmio Nobel, que acertadamente conferem que: dois terços (mais de 66%) é composto por bens e itens intangíveis. Ou seja o Capital Social!

Relata Giannetti que o jogo mudou, e precisamos jogar com qualidade. E esse jogo chama-se Capital Social. E esse jogo precisa ser jogado com Qualidade e com Regras claras e objetivas. E fazendo um paralelo com o futebol: onde estão os nossos jogadores? Qual a qualidade de nossos jogadores? E nossas Instituições, como estão elas, e qual a qualidade que apresentam?

A cultura, ou a formação escolar, não necessariamente é o antídoto para uma sociedade cínica e sem ética. Mas o seu contrário (a falta de formação escolar e um mínimo de cultura) cria um ambiente muito propício para a manipulação e o viver acrítico.

Quando vejo as cenas de vandalismo no Congresso (pela televisão) e depois a cara de pau, sem um mínimo de ressentimento, sem um mínimo de humildade e de vergonha, por parte de todos diante desta tragédia, eu arrepio! Eu incluo a todos: desde o presidente até os oposicionistas que discursaram, desde o comentarista da TV e do rádio até o jornalista que escreveu hoje de manhã. Fico tremendamente entristecido. É a nossa sociedade que é a culpada. Não estamos formando o Capital Social. Não estamos nos dando seriedade alguma. Aceitamos a mediocridade como padrão e agimos inconscientemente com o mesmo cinismo que criticamos.

Ontem estive no IBMEC participando do evento da Endeavour. Feitas as apresentações, o palestrante sobe ao palco e começa a sua exposição para um auditório cheio. Só que, logo atrás de mim, um sujeito atende o celular e se põe a dar ordens detalhadas à sua assistente. Imediatamente me virei para trás e o fulminei com olhar de reprovação. O cara nem estava aí! Continuou a falar enquanto desviava o seu olhar para o teto. Um cínico típico de todos nós.

Talvez eu, egoisticamente, também atenderia o celular, me curvado e falando baixinho. Normalmente eu desligo ou deixo no silencioso, só pra saber quem me ligou. Não sei. Já cedi a essa tentação várias vezes. Por mais que eu saiba que é a maior ofensa pra quem está lá na frente falando e para os demais que estão na platéia. Eu mesmo preciso me disciplinar nisso e em tantas outras coisas. Mas espero, sinceramente espero, que ao ser flagrado por olhar reprovador, tenha vergonha na cara e pelo menos sinalizar com a mão um pedido de compreensão.

Não é possível juntar os dois: ser ético e ser cínico. Que Deus nos livre do cinismo!

3 Comments:

Blogger Lou said...

Valeu Volney,

Nada como escrever com raiva, digo, com o coração. Ave!

11:57 AM  
Blogger Fábio Adiron said...

Volney

O texto está ótimo....mas a verdade é que capital social não paga os mesmos juros dos bancos e nem pode ser depositado em paraísos fiscais.

Não sei se estou sendo cínico ou realista, mas o modelo econômico vigente e de pensamento único está longe (e quer continuar bem longe) de tudo que tenha "cheiro de povo"

11:58 PM  
Blogger Volney Faustini said...

Lou,
Mais uma vez grato pela incursão. É por aí mesmo que temos que mudar as coisas: com o coração (mesmo que a paixão traga um pouco de raiva).

Fábio,
O Giannetti com certeza faria muito melhor argumentação que meu resumo. É um cara pra prestarmos atenção. Exatamente pela dose de realismo que é tão importante nesta hora.
Concordo com vc, mas o modelo que alija do mercado uma substancial parcela da população está se matando.

Acredito que uma bom prato de discussão é a busca pelo círculo virtuoso que nos livra dessa situação de miséria que se auto alimenta.

Esse auxilio-bolsa-familia do Lula, por exemplo precisa ser discutido a fundo pois é um assistencialismo que não produz novos pescadores, só dá peixinhos ...

9:50 AM  

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